Desliguei, ainda um pouco incomodada com o lance de Emily.
Sei lá. Independente de qualquer coisa, ela ainda era a ex dele.
Terminei o segundo artigo e ficou da forma que eu queria.
Deixei transpassar todos os meus sentimentos de angustia, e dúvidas. Afinal, ali
estava minha essência.
Arrumei minha bolsa, desliguei o computador, e passei na
sala de Tom, como o combinado.
-Acabei.. –Falei encostada na porta.
-Ótimo.
Tom pegou as chaves e o celular na mesa, e descemos
juntos.
Fomos até a garagem, e assim que entrei no carro, disse
depois de colocar o cinto:
-Estou curiosa.
-Você vai gostar. Tenho certeza. –Tom sorriu, ligando o
carro, e indo pra avenida. –Tome, ligue, e peça o que quiser. –Ele me deu um
cartãozinho com o nome de um restaurante.
-Como assim o que eu quero?
-Ué, o que você quer almoçar? Então peça.
-O que você vai pedir? –Eu perguntei, e ele sorriu, olhando
pra mim de novo. –Sério. Sei lá, me diz sua comida preferida.
-Massa.
-Ótimo, vai ser espaguete pra nós.
-Você toma vinho?
-Todas as garrafas que tiver. –Ele gargalhou –Sério.
-Ótimo, lá em casa é o que tem. E com esse tempo, está
perfeito.
-Sim, está. –Liguei, e logo me atenderam.
Pedi um espaguete, perguntaram de que conta era, disse o
nome de Tom, e nem precisei falar pra onde que era: o atendente já sabia.
-Gostei disso. –Falei colocando o papelzinho no console do
carro.
-Eu adoro. Sempre quando to ocupado, ligo pra eles e
rapidinho me dão o que preciso.
-Você deve ficar ocupado o dia inteiro, não é?
-Eu chamo de distração. É bom porque ocupa minha mente e
não me deixa pensar em muita coisa, sabe? –Assenti.
Ele fugia dos próprios pensamentos. E devia fugir dos
próprios sentimentos.
-Mas nunca consigo tirar da mente o que evito durante o
dia na hora de dormir.
-Te entendo. É complicado..
Ficamos um pouco em silêncio, e logo depois ele parou o
carro na calçada de uma casa enorme.
-Chegamos?
-Quase. –Ele piscou, tirando a chave do carro, eu peguei
minha bolsa e saímos. –Quase lá..
Tom me conduziu com as mãos em minhas costas pra parte de
trás daquela casa, -ok, mansão melhor dizendo – e logo vi que havia um cantinho
ali atrás.
Como se fosse um ateliê.
Jesus, será que..
Ele tomou minha frente, abrindo a porta, e fez sinal pra
que eu me aproximasse, porque continuei parada ali olhando os fundos da casa, e
o jardim. Era tudo inacreditável.
Assim o fiz, e entrei. Era seu ateliê.
Por toda a parte tinham umas caixas com tintas, e nas
paredes quadros, uns mais perfeitos que os outros.
-Meu Deus.. –Olhei em volta e me aproximei dos fundos.
Ele estava terminando um quadro, parecia um rosto no meio,
e em volta, umas cores abstratas
tomavam conta da imagem.
-O que acha?
-Não sei, ainda. Estou assustada demais pra dizer algo.
–Ele riu, se aproximando de onde eu estava.
Me encostei na bancada onde havia uma pia com umas tintas e
desenhos, e fiquei olhando o resto.
Eram muitos, muitos quadros.
-É terapia pra você, não é? São muitos, meu Deus..
-É sim. Eu acabo um e começo outro. Teve uma época que eu
chegava a fazer 3,4,quadros por dia.
-Nunca pensou em vender?
-Eu leiloei alguns quando comecei a ficar com muitas
dividas por conta de divórcios. Mas foi só por causa de dificuldades mesmo. Mas
as vezes uns colegas meus vem aqui, e acabam pedindo pra eu vender, aí eu até
vendo.
Assenti e continuei olhando.
No final, eu vi um que era uma garota no quarto parecia
estar secando, porque a tinta ainda brilhava.
Me aproximei dele, e Tom veio
logo atrás.
A garota tinham olhos bonitos, mas tristes. E o que eram
aquilo em seu rosto?
Lágrimas.
Aquela garota era eu.
-


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