Capítulo 60 - aquela garota era eu

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019


Desliguei, ainda um pouco incomodada com o lance de Emily. Sei lá. Independente de qualquer coisa, ela ainda era a ex dele.

Terminei o segundo artigo e ficou da forma que eu queria. Deixei transpassar todos os meus sentimentos de angustia, e dúvidas. Afinal, ali estava minha essência.

Arrumei minha bolsa, desliguei o computador, e passei na sala de Tom, como o combinado.

-Acabei.. –Falei encostada na porta.

-Ótimo.

Tom pegou as chaves e o celular na mesa, e descemos juntos.

Fomos até a garagem, e assim que entrei no carro, disse depois de colocar o cinto:

-Estou curiosa.

-Você vai gostar. Tenho certeza. –Tom sorriu, ligando o carro, e indo pra avenida. –Tome, ligue, e peça o que quiser. –Ele me deu um cartãozinho com o nome de um restaurante.

-Como assim o que eu quero?

-Ué, o que você quer almoçar? Então peça.

-O que você vai pedir? –Eu perguntei, e ele sorriu, olhando pra mim de novo. –Sério. Sei lá, me diz sua comida preferida.

-Massa.

-Ótimo, vai ser espaguete pra nós.

-Você toma vinho?

-Todas as garrafas que tiver. –Ele gargalhou –Sério.

-Ótimo, lá em casa é o que tem. E com esse tempo, está perfeito.

-Sim, está. –Liguei, e logo me atenderam.

Pedi um espaguete, perguntaram de que conta era, disse o nome de Tom, e nem precisei falar pra onde que era: o atendente já sabia.

-Gostei disso. –Falei colocando o papelzinho no console do carro.

-Eu adoro. Sempre quando to ocupado, ligo pra eles e rapidinho me dão o que preciso.

-Você deve ficar ocupado o dia inteiro, não é?

-Eu chamo de distração. É bom porque ocupa minha mente e não me deixa pensar em muita coisa, sabe? –Assenti.

Ele fugia dos próprios pensamentos. E devia fugir dos próprios sentimentos.

-Mas nunca consigo tirar da mente o que evito durante o dia na hora de dormir.

-Te entendo. É complicado..

Ficamos um pouco em silêncio, e logo depois ele parou o carro na calçada de uma casa enorme.

-Chegamos?

-Quase. –Ele piscou, tirando a chave do carro, eu peguei minha bolsa e saímos. –Quase lá..

Tom me conduziu com as mãos em minhas costas pra parte de trás daquela casa, -ok, mansão melhor dizendo – e logo vi que havia um cantinho ali atrás.

Como se fosse um ateliê.

Jesus, será que..

Ele tomou minha frente, abrindo a porta, e fez sinal pra que eu me aproximasse, porque continuei parada ali olhando os fundos da casa, e o jardim. Era tudo inacreditável.

Assim o fiz, e entrei. Era seu ateliê.

Por toda a parte tinham umas caixas com tintas, e nas paredes quadros, uns mais perfeitos que os outros.

-Meu Deus.. –Olhei em volta e me aproximei dos fundos.

Ele estava terminando um quadro, parecia um rosto no meio, e em volta, umas cores abstratas 
tomavam conta da imagem.

-O que acha?

-Não sei, ainda. Estou assustada demais pra dizer algo. –Ele riu, se aproximando de onde eu estava.

Me encostei na bancada onde havia uma pia com umas tintas e desenhos, e fiquei olhando o resto.

Eram muitos, muitos quadros.

-É terapia pra você, não é? São muitos, meu Deus..

-É sim. Eu acabo um e começo outro. Teve uma época que eu chegava a fazer 3,4,quadros por dia.

-Nunca pensou em vender?

-Eu leiloei alguns quando comecei a ficar com muitas dividas por conta de divórcios. Mas foi só por causa de dificuldades mesmo. Mas as vezes uns colegas meus vem aqui, e acabam pedindo pra eu vender, aí eu até vendo.

Assenti e continuei olhando.

No final, eu vi um que era uma garota no quarto parecia estar secando, porque a tinta ainda brilhava. 

Me aproximei dele, e Tom veio logo atrás.

A garota tinham olhos bonitos, mas tristes. E o que eram aquilo em seu rosto?

Lágrimas.

Aquela garota era eu.

-

Nenhum comentário

Postar um comentário

 
Desenvolvido por Michelly Melo.