Capítulo 75 (final)

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Ajeitei-me no sofá fazendo um puta esforço. Era difícil me mexer com esses dois dentro de mim.

-Alex. –Chamei-o. –Alex, acorda.

-Ahn.. –Ele se remexeu na poltrona, ainda não abrindo os olhos.

-Alex, a bolsa estourou. –Eu disse calmamente.

-Ta, depois a gente conserta. –Murmurou, fazendo um gesto com as mãos pra deixar pra lá.

-ALEX EU VOU PARIR DENTRO DESSA SALA SE VOCE NÃO ME LEVAR PRO HOSPITAL. 
–Eu gritei pra ver se ele se tocava.

Na hora Alex deu um pulo e me olhou assustado.

-Voce tem cert.. –E então olhou pro meu short. –Puta que pariu! É agora. É agora! –Ficou de pé, pulando.

Comecei a rir.

A cena estava ótima.

-O que eu faço? Eu vou ligar pra uma ambulância..

-Ambulancia? –Gargalhei. –Alex, pega minha mala que está dentro do meu armário, minha bolsa e vamos pro hospital.

-Como?

-DE CARRO, NÉ, ALEX! Anda logo, anda logo. Tá começando a doer. –Inspirei fundo pelo nariz e soltei pela boca, tentando me acalmar.

Estava com medo de sentir muita dor.

Alex num instante se tocou e correu pro meu quarto.

Depois de quase dez minutos, ele voltou todo arrumado e com a bolsa na mão.

Enquanto eu estava de top e o short cinza todo molhado. E ia pro hospital assim mesmo.

-Vamos, me ajude.

Ele me ajudou a levantar e seguimos pro carro devagar, já que eu não conseguia andar muito rápido.

-Quer que eu ligue pra alguém? –Perguntou quando estávamos a caminho.

-Não. Ligue depois. Agora só quero você aqui comigo. –Falei colocando a mão na minha barriga. –
Fiquem quietinhos, por favor, por favor.

-Ta doendo muito?

-Para de fazer pergunta ou eu vou me jogar pela janela desse carro.

-Desculpa, desculpa. –Falou rapidamente.

Paramos o carro de qualquer jeito no estacionamento do hospital e assim que Alex entrou dizendo que eu estava em “quase tendo dois bebes” –inves de dizer “em trabalho de parto”- me colocaram numa cadeira de rodas e me levaram pro andar de cima, onde tinham os quartos destinados às grávidas.

Me ajudaram a tirar minha roupa, deitaram-me na cama e Alex ficou o tempo todo do meu lado, segurando minha mão.

A cada dez minutos a dor aumentava pra cacete.

-Sua médica virá em alguns minutos, ok? –A enfermeira que me ajudou disse antes de sair do quarto.

-Voce quer que eu fique aqui na hora? –Alex perguntou. Assenti, olhando pra ele.

-Com certeza. Não saia daqui um segundo, não me deixe sozinha, ta me ouvindo?

-Nunca. –Beijou minha mão.

-Como vao esses bebes? –Cindy entrou no quarto, dizendo.

-Agitadissimos, Cindy. Tire logo eles de mim, por favor. –Ela riu.

-Ta sentindo muita dor? –Perguntou enquanto chegava meus batimentos e outras coisas

-A cada alguns minutos aumenta. –Falei baixinho. Era a hora que outra onda de dor vinha.

-São as contrações, normal. Tudo certo por aqui.. –Disse depois de conferir tudo. –Vamos ver..

Cindy apertou minha barriga em alguns locais me fazendo urrar de dor.

-Desculpe. Eu só estava vendo se eles estão prontos.

-E já estão?

-Só mais dez minutos.

-Não, não, não! –Eu falei puta da vida. –Eu vou dar uma surra nesses moleques.

-Amor.. –Alex disse sem graça, me repreendendo.

-PORQUE NÃO É VOCE COM DOIS BEBES ENORMES DENTRO DE VOCE NÉ, ALEX.

-Fique calma, Isabella. –Cindy disse, rindo. –Por favor, fique calma e se concentre. Quanto mais agitada você ficar, mais difícil vai ser deles saírem.

Voltei a fazer minhas inspirações pelo nariz e expirações pela boca, ritmadamente.

Cindy saiu da sala e depois de alguns minutos, voltou toda preparada. Abriu minhas pernas e começou a falar:


-Está pronta?

-Mais que pronta. –Falei sarcasticamente.

-Ok. Comece a fazer força, muita força. –Ela me instruiu.

Continuei segurando a mão de Alex e comecei a quase gritar de tanto fazer força.

-Isso, continue assim, vamos, vamos, Isa! Você consegue.

Olhei pra Alex com medo.

-Vamos, amor, vamos. –Ele me encorajou. –Eu to preparado. Você também. Você consegue fazer isso. 
Trás logo nossos menininhos pra gente.

Foi tudo o que eu precisava ouvir.

Comecei a fazer força e a jogar meu corpo pra frente enquanto o fazia, meio que empurrando minha barriga. Não demorou muito pra eu sentir perfeitamente uma cabeça saindo de dentro de mim e segundos depois, um grito de choro.

-Um já foi! –Cindy disse, entregando o bebe pra outro médico que estava na sala. –Vamos, Isa! 
Vamos que o outro quer sair também.

-Ah, meu Deus.

-Vamos, Isa, só mais um..

-Só mais um mesmo! –Eu falei antes de fazer toda a força que pude novamente.
E mais uma vez, meu coração disparou ao sentir outro bebe sair de dentro de mim e um choro seguido dele.

-Muito bem! –Cindy disse sorrindo e entregando o bebe pro médico. –Voce se sente bem?

-Só to cansada. Ta tudo bem. Cade eles? Eu quero ve-los..

-Tao vindo, calma. Estao só limpando e enrolando eles pra vocês.

Alex me olhou com os olhos cheios d’agua.

Minutos depois vieram dois médicos, cada um segurando um bebe. Sentei-me direito na cama e fiz um gesto pra que ele me entregasse os dois.

Assim que ele o fez, mantive cada um em cada braço meu e os olhei com certa admiração. Orgulho. Eles eram tão pequenininhos e ainda assim, eram os seres humanos mais lindos que eu já havia visto em toda minha vida.

-Oi, filho. –Eu sussurrei, olhando pra um e beijando sua testa. –Oi, pra você também, filho. –Eu disse pro outro, rindo.

Eles ficavam se mexendo e me olhando com certa estranheza. Deviam estar pensando “é você, então?”.

Alex estava sentado na beirada da cama, olhando pros dois e brincando com seus dedinhos minúsculos.

-Esse é o papai. –Eu disse apontando com a cabeça pro Alex. –Deem oi pro papai.

Dei um deles pra Alex segurar, com cuidado, e quando o vi pegando ele no colo meu coração quase 
explodiu de tanta alegria.

Depois trocamos e ele pegou o outro, fazendo a mesma coisa, beijando-o entre soluços. Ele não 
parava de chorar. Era lindo de se ver toda aquela emoção dele.

-Eles são tão lindos.. –Alex finalmente disse, me olhando enquanto eu os segurava. –E são nossos, só nossos.

-Amo vocês três. Amo muito vocês três. –Eu disse olhando pros bebes e depois, pra ele. –Nós conseguimos.

-Nós conseguimos. –Alex disse antes de me beijar e depois agarrar minha cabeça, beijando minha testa e chorando novamente. Chorei junto com ele. –Nós conseguimos, Isa..

Naquele momento eu senti algo inexplicável. Uma mistura de alegria, nervosismo, proteção, carinho, tomava conta de mim. Eu tinha uma família agora. Eu ainda não sabia dizer se o que eu estava sentindo era puro amor pelos meus filhos e pelo meu namorado, mas tenho quase certeza de que chegava perto, porque se não era.. O que era o amor, então?

Acredito que são esses momentos, esses pequenos momentos, da nossa vida que nos permitimos sentir tudo de uma vez só e deixar que esse sentimento tome conta de nossa alma.

Eu e Alex passamos por muita coisa; juntos e separados. Talvez todas essas coisas tenham deixado marcas na gente, verdadeiras cicatrizes, que ao longo de nossa história de amor não nos deixou nos entregarmos com tanta rapidez, nos privou de tanta felicidade que poderíamos ter vivido. Mas ainda assim, nós vivemos muita coisa boa e nos permitimos ser felizes em alguns momentos, nos permitimos nos amar certas vezes, ou devo dizer.. Em todas as vezes que estávamos juntos. Não deixamos essas cicatrizes ficarem no meio da gente, mas também, não podíamos camufla-las, fingirmos que não passamos pelo céu e o inferno porque essas cicatrizes do passado são a nossa história, que escrevemos por baixo da pele, onde apenas nós dois conseguimos ler.

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