-E aí, como eles tao? Já na menopausa? – Jer perguntou assim que entrou
no carro, me fazendo rir.
-Ah, para, é só um almoço. E seja educado.
-Ah, eu serei. – revirou os olhos. Jeremy nunca teve um relacionamento
muito bom com nossos pais porque eles nunca apoiaram muito bem a decisao dele:
largar o colegio, escrever um livro, publicar, ficar famoso..
E é claro, eles nao sabem sobre a parte dele ter um namorado.
-Nao acha que ta na hora de contar a eles? – eu perguntei, enquanto
seguiamos pro aeroporto.
-Sei la. –deu de ombros.
Ele nunca se incomodou de contar, já que começou a namorar um cara
recentemente, e nunca se importou com a opiniao de ninguem, entao.. Só nao
contou pra nao correr o risco de ouvir aquilo que ele nao quer.
Chegamos ao aeroporto, comprei nossas passagens e depois de quatro horas
e meia – sim, sao quatro horas e meia de viagem da Califórnia até Nova Jersey!-
chegamos no aeroporto de NJ.
Papai já esperava por nós.
Tinha cerca de um mes que eu nao o via, achei ele mais velho e
barrigudo, mas a saudade que eu tava dele era maior que sua barriga.
-Papai! – abracei-o assim que o vi.
-Oi minha filha! Como voce está grande! –segurou meu rosto, me olhando,
como ele sempre fazia.
-Pois é..
-Oi filhão! –ele abraçava Jer agora. – Como estao as coisas com o livro?
-Bem. Fluindo. – Jer riu, me olhando. Papai fazia essa pergunta todas as
vezes que o via.
-Bem, vamos pra casa. O almoço já está esperando voces ha algum tempo!
-Claro. – eu e Jer dissemos, mortos de fome.
-
Depois de muitos beijos e abraços de mamae, almoçamos uma deliciosa
macarronada –que eu ja estava morrendo de saudade!- e sentamos na sala pra
assistir TV, como sempre faziamos.
-Olha só que pouca vergonha! Isso é coisa de outro mundo mesmo.. – papai
disse assim que apareceu um casal gay numa serie que estavamos assistindo.
Engoli seco.
-Nao fale isso, querido. Eles se amam.. – mamae disse, tentando amenizar
a situaçao. Ela olhou pra Jer apreensiva. Ela nao sabia de nada. “Nao sabia”.
-Eles sao homens, Luce! Homens! Homem tem que ficar com mulher!
-Fala isso pro meu namorado entao, pai. – Jeremy falou, se levantando.
Minha mae e eu só sabiamos olhar pro rosto contorcido de meu pai.
-Do que que voce ta falando?
-Eu to namorando um cara, pai. Um homem. Um ser com um penis, que nem
eu, sabe?
-Voce ficou doente? – papai disse, com um rosto de desgosto.
-Se voce chama o amor de doença..
-Olha o que ele está falando, gente! – papai nos olhou, procurando
ajuda. Quando viu que apenas abaixamos a cabeça, ele entendeu. – Voces ja
sabiam desse absurdo? E NINGUEM ME CONTOU NADA? Mas que merd...
-Olha só, eu vou facilitar pra voce e vou simplesmente sair, valeu? –
Jeremy disse, indo em direçao a porta. – eu to feliz e nao contei pra voce
porque sabia que voce falaria justamente esse tipo de coisa. Eu to fora. Tchau
mae, o almoço estava ótimo.
-Jeremy, meu filho, nao faça iss.. –Mamae tentou argumentar, mas ja era
tarde demais.
Saí atrás de Jeremy, minutos depois, e o encontrei um quarteirao depois
da nossa casa, entrando num bar.
-Era pra ele me apoiar, porra! – Jeremy socou a mesa, chamando atençao
de quem estava a nossa
volta.
-Eu sei, Jer. Desculpe. Desculpe por voce ter de passar por isso.
-Voce nao tem culpa. Ele me faz sentir defeituoso, sabe? Porra! Que
diferença faz se eu beijo na boca de um homem ou de uma mulher, pra ele? que
que vai mudar, na porra da vida dele?
-Os amigos dele dizendo que o filho dele namora um cara. – revirei os
olhos. Era exatamente só com isso que papai se importava: com o que os outros
pensariam de nós.
Por isso fomos embora daquela casa o quanto antes.
-Que merda. Eu tenho nojo dele. – Jeremy chamou um garçom, depois de
dizer. – tequila, por favor.
-Eu quero, também. – ele me olhou surpreso assim que eu pedi. – o que?
Estou te apoiando aqui, mano.
Jeremy riu, e entao, eu soube que mais algumas doses e a gente podia
voltar pra casa e esquecer tudo.
-


Nenhum comentário
Postar um comentário