-Que droga, que droga, que droga!
Joguei meu celular em cima da mesa daquela loja de café, perto do.. o
que, do fim do mundo?
Pois é, isso se trata de uma garota de quase 20 anos na cara, perdida em
um Starbucks, em Nova York.
Ah, também tem o minimo detalhe que esqueci: era noite de Natal.
E nao tinha uma mínima chance de alguém vir me buscar ou sequer, lembrar
de mim.
OK, vamos começar do.. ok, da parte interessante. Ou da que eu
fui estúpida o bastante de dizer a meus pais e parentes que tentaria chegar a
tempo pro Natal, e que talvez nao conseguisse. Ou seja, todos estavam nem aí
pra mim. Por que nunca esperavam nada de mim.
Desde criança eu nunca liguei pro Natal, mas depois que saí de minha
cidade-natal, Boston, e fui fazer faculdade fora eu realmente senti o valor
que eu perdi dos Natais passados, nao aproveitando o tempo que eu tinha com
minha família.
Agora, esse ano, todos resolveram celebrar na casa de meu irmão, Kaleb,
em Nova York. E realmente, eu consegui sair do trabalho a tempo mas acabei me
perdendo no caminho e tudo que achei e consegui me refugiar em, foi nessa Starbucks.
E então, nem meus pais, resolveram atender telefone -ou pelo
menos deixar eles ligados-.
E eles nem sabem que a adorável, inútil e egoísta filinha deles
está perdida em algum lugar de Nova York, sem nem saber aonde fica um hotel. É.
Isso aí. Emily Courtney, sucedida jornalista de Boston, está suspeita a passar
a noite de natal deitada em um banco de praça.
Me diz, o que eu faço agora?
Choro?
O imprestável do meu irmão nao quis me passar um mapa, nem nada de sua
casa. Mal me deu o nome de sua rua.
Era sacanagem com minha cara, nao é?
Comecei a tentar ligar pra minhas primas -até elas resolveram ir pra
casa de Kaleb esse ano, vê se pode -meus tios, e nada. Ninguém atendia o
telefone.
-Moça? -Um atendente chegou por trás de mim, com a voz calma.
Sequei meu rosto rapidamente com aquelas lágrimas que caíram conforme tamanho
era meu desespero e me virei pra ele.
-Sim?
-Fecharemos em vinte minutos, está bem?
-OK. OK.
Terminei de tomar meu capuccino, mas antes de me levantar meus joelhos
cederam um pouco e eu quase caí. Meus olhos estavam focados apenas em quem acabara
de entrar na cafeteria.
Alto -mas nem tanto, devia estar só uns dois dedos mais alto que eu -,
estava bem protegido do frio e da neve que caíam la fora, com seu sobretudo
preto e uma jeans bem clara e manchada, com um coturno cinza, bem bonito
também. Seu cabelo continuava do mesmo jeito de anos atrás, castanho, meio
bagunçado mas bem lisinho, e aquela barba nas laterais do rosto?
De onde havia vindo todo aquele estilo?
Ele percorreu rapidamente os olhos pelas mesas e logo parou em mim, me
dando uma boa -e descarada? -olhada de cima a baixo, e vi um sorriso imenso
abrir em seu rosto.
Este era Jake Wildhood. Meu melhor amigo desde (a 4ª série?) ok, desde
sempre. Nós éramos extremamente próximos, eu nunca me esqueceria aquela
face tão suave e tranquilizadora,
independentemente de quantos anos se
passassem.
Jake fechou a porta, -ainda sem tirar os olhos, e o sorriso de mim -e
veio se aproximando de mim, de mansinho, ele devia estar se perguntando "é
você mesmo?".
-Eu nao to acreditando nisso. -Finalmente falei, me levantando de vez e
indo correndo em direção a ele.
E como nos velhos tempos, Jake me deu aquele abraço. Aquele abraço que
só ele sabia dar. O qual eu mais precisava agora.
-Saudade é pouco, então. -Ele disse perto de meu ouvido e afagando
minhas costas ainda. -O que você está fazendo aqui sozinha, Emy? O que
aconteceu?
Jake viu meu rosto choroso, e logo se mostrou preocupado.
-Eu to perdida, Jake! Vim pra comemorar o Natal com minha familia..
Kaleb se mudou tem pouco tempo pra cá, me passou um endereço todo errado e..
-Fiz um gesto com as mãos, pra cima e pra baixo, balançando a cabeça ao mesmo
tempo -Essa sou eu, sozinha na noite de Natal!
-Nao, nao, nao mais! -Jake se aproximou de novo, me agarrando pela nuca
com seu antebraço e dando um beijo em minha cabeça. -Vamos, eu estou de carro e
a gente tenta chegar nesse tal lugar.
-Está falando sério?
-Claro que sim, Emy. Vamos logo, ouvi falar que a nevasca vai apertar
neste Natal!
Nós saímos rapidinho do Starbucks, pegamos seu carro -que, a proposito,
era quentinho e aconchegante -e ele logo o colocou nas ruas de NY, tentando
achar o maldito bairro.
-O que houve nesses anos? Você sumiu do mapa, garota. -Jake disse
sorrindo pra mim ainda.
-É verdade. Ah, eu enlouqueci, saí de Boston pra fazer uma
faculdade em Harvard, na Inglaterra, depois voltei pra Boston, e trabalho como
jornalista. -Ri, lembrando das tantas e tantas vezes que eu e ele fazíamos
planos pra fazermos faculdade juntos -E voce?
-Eu to morando por aqui, adoro isso aqui, Emy. Sou arquiteto.
-Caramba, serio? -Falei numa voz empolgada -Meu Deus! Fico feliz por ter
conseguido.
-Obrigado por ter me encorajado naquela época.
Jake morria de medo de chegar pros seus pais e contar a verdade. Contar
que ele nao queria nem tinha ambição por ser um médico famoso, ou um advogado
muito procurado. Ele só queria, e sempre quis, abrir um pequeno escritório de
arquitetura, viver e se sustentar daquilo. Fazer aquilo que ele sempre
gostou.
-Você nao mudou muita coisa. -Jake disse, me olhando e rindo. -Continua
sendo a mesma garotinha perdida.
-Nossa, nem fala. Dessa vez eu bati o recorde de acabar com o Natal.
-O que você ia fazer, se eu nao tivesse aparecido?
-Dormir no banco da praça da esquina?
-Ta de brincadeira?-Ele gargalhou -Por que nao comprava passagens e
voava de novo pra Boston?
-Aham, com que dinheiro? Eu vim pra cá no susto! Eu achei que seria
chegar, aeroporto, meu irmão me pegava, e depois comprava a passagem de volta,
né.
-Voce nunca pensa no futuro, né, Emily..
-É.
Dei um suspiro, abafado. Ele estava certo. Desde adolescente, eu sempre
era assim. Eu pensava só no agora, afinal, o que importava nao é o agora?
Mas a vida sempre está nos demonstrando que nao. Sempre.
-O que vai fazer amanha? -Perguntei.
-Ahn... Nada? -Jake riu. -Eu ia passar o Natal com minha família também,
mas sei lá. -Deu de ombros, se ajeitando no banco -Eu preferi só passar no
Starbucks, comprar um capuccino e depois ia pra casa.
-Até eu aparecer nessa linda noite de Natal e atrasar todos os
seus planos, quase chorando feito criança por estar perdida, em Nova York.
-Na verdade foi o melhor presente de Natal que eu pude ganhar,
ter te encontrado, sabia?
Olhei pra Jake, e ele olhou pra mim na hora que parou o carro. Jake
estava com outros olhos e até outro visual. Mas ele continuava o mesmo Jake, o
homem decidido, o homem com a cabeça no lugar, que sempre acabava vindo me
buscar, me salvar, me ajudar.
-Chegamos. -Ele falou, desligando o carro e olhando pra frente,
quebrando o clima. -Eu posso passar aqui, se quiser, amanha?
-Jake.. Vamos comigo. -Inclinei a cabeça pra janela, indicando a casa.
-O meu melhor presente seria você passar o Natal comigo.
-E desde quando você acredita em Natal, presentes, e coisa
relacionada, huh? -Jake voltou a olhar pra mim, rindo.
-Desde quando meu melhor amigo surgiu de sei lá onde, pra me salvar.
-Encostei a cabeça no banco, encarando seus lábios -Como ele sempre fez.
-Eu senti sua falta.
-Eu preciso de você.
Nós dissemos quase na mesma hora, e então, ele fez tudo o que eu
precisava pra sentir mesmo a chamada "magia do Natal". Jake se
inclinou pra perto de mim, guiando sua mão pra minha nuca, e eu me aproximei
mais dele, acariciando seu rosto, onde tinha uma barba bem ralinha e charmosa.
Nossos lábios se colaram como um clique, e o que aconteceu
depois, pareceu um sonho. Pareceu como flutuar. Nao sei se tem como "acreditar",
na magia do Natal, ou se tem como afirmar que ela existe, e é a mesma pra
todos.
Mas pra mim, ela existe.. e nao se acredita, ela se sente.
É igual acreditar em papai noel. Uns acreditam que é um velhinho gordo,
flutuando pelo céu com seu trenó puxado por suas renas. Outros contam que é um
anjinho da guarda que só tras felicidade, paz, e amor.
Eu? Eu continuo não acreditando em nada disso. Eu já tenho certeza que
Jake é e foi o meu Papai Noel, por muito tempo. Mas ainda não tinha magia
o suficiente pra eu notar isso.
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