Impaciência. Ansiedade. Medo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017



Puxa a bolsa pra frente.
Coloca o celular na barriga, por dentro da calça.
Não, dentro do sutiã é melhor.
Amarra um casaco na cintura; assim ninguém fica olhando pra sua bunda.
Psiu, ei, gostosa!
Sua burra, filha da puta, não tá vendo o sinal vermelho?
O troco tá errado.
Obrigada, boa tarde.
Passa o celular, passa o celular!
A gente mal respira. A gente corre. Corre de um lado corre pro outro.
Arma na cabeça. As mãos tremem, o coração acelera. Vontade de chorar. Quem? Quem está segurando a própria arma.
Medo.
Arma na cabeça. As mãos tremem, o coração acelera. Vontade de chorar, comprei esse celular ontem e ainda estou pagando. Quem? A vítima.
Medo.
Vamos logo, filho. Você vai se atrasar. Que beijo o quê, vai logo, entra logo no carro! Anda, garoto, anda!
Impaciência.
Será que tô gorda? Vai caber esse vestido? Não, é pra festa do mês que vem. É isso. Vou entrar na academia. Sim. Preciso perder 10 kg. Não, 5 tá bom. Meu Deus, amanhã tem churrasco lá em casa…
Ansiedade.
E o ciclo é viciante. A gente mal lembra como respira; acaba achando que é algo que só o corpo tem que fazer, que ele é seu empregado, trabalha pra você. Anda, respira logo, vai, inspira agora.
Não, tá rápido demais, mais devagar. Não vou te pagar pra tanto trabalho. Tem como ficar até mais tarde hoje? Anda, expira.
A gente sai de casa, faz o mesmo caminho todos os dias. Vê as mesmas pessoas todos os dias, ou quase.. e quando lembra, pergunta “e aí, tudo bem?”, por educação mesmo, porque sempre depois de um ‘oi’, vem um ‘tudo bom?’. A resposta nem é ouvida; que dirá compreendida.
Processo de comunicação falho.
Entra no ônibus lotado, vai pensando no que vai fazer no trabalho/faculdade/colégio/vida. Não para de pensar um minuto. Alguém grita com o motorista. Ele grita de volta.
Nada de novo.
Chega no seu destino; desce, olha pros lados, aperta a bolsa/mochila no corpo. Anda rápido, alguém pode estar te seguindo ou te olhando.
Entra no estabelecimento. Estuda, trabalha, faz exatamente àquilo que você foi designado a fazer; se estressa com alguém, dá aquele risinho rápido, ‘’bom dia’’, ‘’boa tarde’’, ‘’boa noite’’.
Entra no ônibus lotado. Pensa mais um pouco; tem janta? Já pagou a conta? Tem dinheiro pra amanhã, pra semana que vem..? E o fulano…
Nada de novo.
Chega no seu destino; desce, olha pros lados, aperta a bolsa/mochila no corpo. Anda rápido, já está chegando.. mais um pouco e..
Entra em casa.
Tira a roupa.
Senta.
Respira.
Liga a TV.
Crimes. Medo. Doença.
E nós chamamos isso de viver.

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