Depois de uns minutos em silencio, eu não me contive e perguntei:
-O que há de errado, Pether? Se tiver algo pra me contar, você pode me
contar. –Ele assentiu evitando olhar pra mim.
-No começo desse ano, quando recebi meu diagnóstico, o médico disse
que eu teria apenas 6 ou 7 meses de vida.
-O que? –Arregalei os olhos, assustada –Está brincando, não é?
-Não brinco com assuntos como esses. Mas continuando.. No meu 5º ou 6º
mês, eu te conheci. Invés das sensações que meu médico me explicou que eu
talvez tivesse quando soubesse que eu estaria morrendo, que aquela era a hora,
eu comecei a sentir tudo completamente inverso. Eu me senti mais vivo, Elena.
Cada dia que eu vou pra aquele hospital, eu me sinto dessa forma.
-Por que não me contou isso?
-Não era hora. –Ele deu de ombros –E..Em alguns dias eu vou pra Nova
York.
-Como assim? Por que?
-Eu ultrapassei meus limites de vida, mas não sou imortal. Minha
família não é daqui, eu apenas vivia aqui, e quis permanecer só pra poder
manter o tratamento. Agora, eu estou completamente instabilizado, eu quero
ficar com minha família, sabe?
-Queria poder dizer o mesmo. –Chutei uns cascalhos no chão,
suspirando.
Eu sabia que eu não poderia dar uma noticia daquelas pelo celular pra
meus pais, ou muito menos, chegar em Oklahoma, convidar meus pais pra um chá da
tarde e pronto, contar que a filha deles que não tem nem 25 anos, tem câncer.
Não quero que meu pai veja as duas mulheres que ele mais ama nessa vida,
desfalecendo aos poucos. Isso acabaria comigo.
-Você sabe que pode abrir o jogo. Não deve ser tão difícil? –Pether
olhou pra mim.
-Ah, com certeza é. Minha mãe é doente e eu tenho cem por cento de
certeza que o que ela tem, é tumor, que nem o meu, pode até ser. Mas ainda não
medicaram ela, ou... Já, e não me contaram, ainda.
-E se te contassem? Como você reagiria?
-A Elena de antes piraria completamente. Ela acharia que a vida dela
acabou, e sei lá, o que ela seria capaz de fazer –Dei de ombros –A Elena de
agora..
-Ela encararia tudo, dia por dia, não é?
-Exatamente. Eu apoiaria minha mãe o quanto ela precisasse.
-É, imaginei que diria isso. É dessa força que veio a luz da vida me
dar uma segunda chance. E posso dizer outra coisa?
-Claro.
-Eu não me arrependo nem um por cento de ter passado esse tempo com
você. Eu sei que você ama o Logan, e eu realmente gosto de você, mas.. A cima
de tudo, você me acolheu, sabe? Me escutou, me ajudou completamente.
-E eu tirando minha força, de você. O tempo inteiro..
-Nós nos ajudamos, Elena. Você sabe disso.
-Tem dia certo pra você ir embora?
-Ainda não. E quando tiver, eu te ligo. Não quero me despedir de você.
Não pessoalmente.
-É. Eu também não gostaria.
-Nós ainda vamos nos encontrar por aí. –Ele jogou seu braço por cima
de meus ombros, beijando o topo de minha cabeça –Eu tenho certeza disso.
-O destino juntou nós dois no pior momento de nossas vidas. Acho que
ele poderia fazer uma forcinha pra juntar novamente, não é?
-E quem sabe vai ser num momento melhor?
-É. Quem sabe.
Flashback off.
Depois daquela caminhada, eu e Pether fomos ficando mais próximos. A
gente trocava SMS todos os dias –digo, nos horários extras, sem ser na terapia,
naquele hospital –e conversávamos sobre tudo. Sonhos, e coisas loucas que
poderíamos fazer antes de um deixar o outro. Foram os dias mais divertidos da
minha vida. Foi.. Foi algo que eu nunca poderei me esquecer.
Até o dia dele me ligar, se despedindo.
-


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