Por volta de 2 da manhã,
o bar estava começando a ficar insuportável de cheio (e quente!) e para piorar,
uma chuva forte começou a cair.
Eu e Yuri não nos
aguentávamos mais de beber (pois é, começamos a beber um pouco...talvez muito)
e de incomodados de não mais estarmos sozinhos no nosso cantinho (tinha gente
passando de um lado para o outro toda hora).
-Vamos embora? – eu
finalmente falei, meio enrolado.
-Com certeza. Escuta, eu
moro aqui perto. Aqui perto mesmo. Nem precisaria de carro.
-Então vamos a pé, ué. –
eu levantei, dizendo. Yuri pareceu meio surpreso. Talvez pensou que tivesse que
surgir com uma desculpa para me convidar pra sua casa.
Mas eu realmente não
precisava de desculpas no momento.
Dividimos a conta,
pagamos e fomos andando meio trôpegos pela rua. De fato sua casa era no final
da rua (melhor: seu big apartamento).
Entramos, pela sala do
apartamento, e eu senti pena das gotas que caíam em seu piso de rico.
Yuri reparou que eu
estava me sentindo fora do ninho e preocupada com a bagunça, então, disse:
-Ei, não se preocupa com
isso. – riu, se aproximando e me ajudando a tirar minha jaqueta que estava
ensopada. – depois eu limpo.
-Voce limpa?
-E voce acha que eu tenho
doméstica, Karol?
Fiquei olhando pra ele como
se dissesse: “estou em choque por você ainda esperar que eu não imaginasse isso
nessa casa que só faltava um sistema eletrônico tipo Siri para falar ‘você por
acaso gostaria de uma toalha?’”.
-Eu não tenho doméstica,
Karol. – Yuri riu, indo para um quartinho ao lado da sala para pegar algo. –
Aqui somos eu e minha bagunça.
-Voce mora sozinho ha
muito tempo?
-É, meus pais me deram
esse apartamento quando passei pra direito. Era o sonho do meu pai me ver cursando
e se realizou quando eu realmente quis fazer e nao por pura pressão
psicologica. – rimos. Yuri veio com uma toalha para me ajudar a me secar.
Enquanto ele ajudava a
secar meu cabelo, atrás de mim, parou por um momento.
-Tudo bem? – virei a
cabeça de lado, sob meu ombro.
-Você tem um cheiro muito
bom. – disse, afagando meu cabelo. Depois daquilo ainda veio um beijo em meu
ombro.
Eu ri, achando engraçado
o jeito que suas palavras saíram meio tortas e desgovernadas de sua boca.
Mas quando suas mãos
encontraram minha cintura e me giraram de frente pra ele, a graça acabou. Com
um olhar sedutor ele encarou meus olhos, meio que esperando uma confirmação do
que estava prestes a fazer.
Dei permissão a ele, ao
colocar minha mão em sua nuca, puxando-o para um longo beijo.
Ali que eu senti faíscas
saírem de dentro de mim e se eletrocutarem com as faíscas que saíam de dentro
dele.
Ali que eu senti que
nossa noite estava começando de verdade.
Acordar na casa de um
cara “desconhecido” é estranho, e depois de beber todas na noite anterior, pior
ainda.
Voce já acorda enjoada e
sem saber o que rolou direito (mentira, eu lembro bem da noite anterior e de
como nossas roupas eram arremessadas em cada canto possível da casa), imagina
sem saber lembrar aonde exatamente você está?
O cheiro de algo sendo
frito e de café (ah! Café! Como eu preciso! Como eu quero!) sendo preparado
acabou me despertando.
Eu realmente não estava
acostumada com isso tudo (principalmente com a primeira parte de dormir com o
cara no primeiro encontro!), então cheguei na cozinha bem tímida (com um coque
que fiz no cabelo e a blusa social de Yuri que estava em sua poltrona do
quarto) cobrindo meu corpo nu.
-Bom dia. – ele disse
sorrindo, me olhando por de trás da bancada de sua cozinha americana.
-Oi. – eu sorri, sentando
em um dos banquinhos, em frente a ele e o fogão que estava cozinhando.
-Tudo bem? Quer algum
remédio? – Yuri deu a volta e parou em frente a mim, me beijando.
-Não, acho que só café
está bom por agora. O que está cozinhando?
-Ovos mexidos. Quer? Com
pão?
-Com certeza. – sorri,
olhando-o.
-Gostei da camisa. Ficou
bem em você. – ele sorriu, piscando e olhando pro decote que se formou em meus
peitos conforme não terminei de fechar os botões da blusa.
-Ficou ótima, né? – eu
ri, fazendo pose, enquanto servia um pouco de café numa xícara que ele havia
deixado separada em cima da bancada.
-Vou te dar meu guarda
roupa sempre que estiver por aqui.
-Sempre que eu estiver
por aqui? – eu repeti, dando certa ênfase no “sempre”.
-Sempre que estiver por
aqui. – ele repetiu também, sorrindo e me servindo um pouco de ovo.
Yuri se serviu, sentou-se
ao meu lado, comemos e conversamos um pouco sobre a noite passada.
Quando acabamos de comer,
ele disse:
-Nossa, já são quase 10.
Eu preciso te deixar. Vou pra uma aula agora...
Quando ele disse isso
algo clicou em minha mente.
Aula;
Segunda-feira;
10:15.
-AI, MEU DEUS! – Eu
levantei correndo pro quarto dele e fui tomar um banho.
-Tudo bem, aí dentro? –
perguntou Yuri, preocupado. Coitado, deve ter pensado que sei lá, esqueci de
tomar a pílula ontem a noite.
-Sim, eu só esqueci que
eu trabalho!
Ouvi ele rindo.
Terminei de tomar banho
(Talvez tenha sido o banho mais rápido da vida), coloquei minha roupa (ele me
emprestou outra blusa social sua que acabou caindo bem em mim) e ao pegar
minhas coisas, disse:
-Preciso ir, me desculpe
por isso. Eu esqueci completamente.
-Sem problema algum. Te
encontro pro almoço?
-Com certeza. – eu sorri,
beijando-o.
Verifiquei em meu
celular, quando estava no elevador, se algum táxi estava disponível no
aplicativo. Por sorte, consegui pegar um e fomos voando (quase) pro curso de
inglês que eu dava aula.
Cheguei lá, esbaforida,
arrumei as coisas pra aula e me sentei.
Por sorte, meus alunos
também estavam meio atrasados (a chuva de ontem ainda continuava a cair). Mas
conforme hoje eu começaria a dar aula para uma turma nova, não poderia correr o
risco de me atrasar tanto assim, ainda mais que era turma de adultos (de 19 a
25 anos).
Quando algumas meninas
começaram a entrar na sala, me toquei que havia esquecido uma lista de
presença.
Saí da sala e fui até a
sala dos professores. Peguei o material e quando voltei pra sala, precisei me
sentar pelo choque que tomei.
Sentado, em uma das
últimas carteiras e mexendo no celular, estava ele.
Só podia ser ele, era
idêntico a ele, até o jeito de arrumar o cabelo.
Yuri.


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