Era por volta de 18h da noite e eu já estava
começando a me arrumar. Ok, não me arrumar, mas eu estava só separando minhas
roupas.
Às 20h eu tinha marcado um encontro com Yuri,
um rapaz que é amigo dos meus amigos e eles disseram que temos muito em comum, então,
com certeza ia dar certo.
Não que eu estivesse desesperada para
encontrar alguém, não, longe disso.
Acabei de sair de um intenso relacionamento
("acabei" porque já fazem 5 meses que isso aconteceu) e estou bem
sozinha, bem mesmo.
Mas não aguentava mais o pessoal da faculdade
dizendo que ele e eu somos muito parecidos, que tínhamos que no mínimo nos
conhecer. Ok. Topei (não sem antes checar o Insta dele, é claro). Trocamos
algumas palavras por lá, e pelo Whatsapp também. Ele foi bem simpático, manteve
o clima menos estranho possível (afinal, éramos duas pessoas que nossos amigos
estavam desesperados para juntar).
E, depois de cerca de uma semana, ele me
chamou para um barzinho (quase um pub) que tem perto da minha casa e costuma
ficar cheio às sextas a noite com música ao vivo. Sim, nada foi dado de mãos
beijadas pelos nossos amigos: primeiro nos conhecemos e vimos se ia rolar de
verdade. Rolou, então aceitei seu convite.
Mas agora eu suava em bicas de nervoso. Digo, saí
com uns carinhas ali, outros aqui, mas nunca nada muito sério... acredito que
talvez eu tenha me acostumado a ficar sozinha.
"Sozinha" porque uma pessoa que
trabalha em uma empresa representante de Editoras de livros, cursa Letras, dá
aulas de inglês em um cursinho duas vezes na semana, malha cinco vezes na
semana e aos finais de semana vai para o sítio dos pais ou sai com os amigos,
não é sozinha. Não é solitária.
Claro que às vezes faz falta um companheiro
pra dividir uma conversa boba e um sentimento avassalador.
-Karol, relaxa! Você acabou de conhecer Yuri,
certeza que não vai ser nada demais. - disse minha irmã, Larissa, que também
fazia faculdade no mesmo local que eu e conhecia Yuri. Na verdade, ela já tinha
até feito umas aulas com ele.
-Eu tô de boa, Lari. – disse eu, tentando
disfarçar.
Mas quando eu estava nervosa era perceptível:
começava a arrumar coisas que já estavam bem arrumadas.
Minha irmã riu, revirando os olhos e voltando
sua atenção para seu celular que tinha em mãos.
Ah, meu Deus.
E se ele me odiar?
Pouco depois das 20h, meu celular começou a
tocar e ao ver o nome “Yuri” nele, meu coração tremeu. Era agora.
Graças a Deus ele conseguiu se atrasar um
pouco, porque eu também consegui me enrolar. Eu sou aquelas que começam a se
arrumar duas horas antes do compromisso e ainda conseguem se atrasar. Sim, eu
mesma!
-Oi! – atendi em uma voz animada.
-Karol? Já tá pronta? É Yuri.
Ele tinha uma voz tão
doce que até pelo celular conseguia me tirar arrepios. Quanto tempo eu nao me
sentia assim.
-Sim! Está aqui embaixo?
-Aham. No carro. Preto.
Quer a placa?
-Não, não. – rimos. – tô
descendo!
Dei um beijo nervoso na
minha irmã e um sorriso de soslaio. Uma última ajeitadinha no cabelo e...
pronto! Estava ótimo.
Desci toda atrapalhada,
terminando de passar um protetor labial e peguei logo o elevador. Eu nao sabia
se o que eu estava sentindo tremer era meu coração ou o elevador velho do
prédio mesmo.
Ao chegar na portaria do
prédio, vi logo seu sedã, preto, parado. No momento em que eu estava fechando o
portão, Yuri saiu do carro e deu a volta, me esperando em frente a porta do
passageiro. Quando me virei, me senti surpreendida ao ver aquele cara
maravilhoso, encostado do lado de fora do carro de blusa social e calça jeans,
me esperando com um sorrisão no rosto.
-Olá. – falei, me
aproximando. Trocamos dois beijinhos na bochecha e eu dali consegui sentir o
maravilhoso cheiro de perfume que emanava daquele homem.
-Oi. – respondeu.
Yuri abriu a porta pra
mim, entrei, e em poucos segundos ele entrou do outro lado.
-É aqui pertinho o pub,
né? Tava procurando aqui no GPS pra dar uma olhada.
-É, é sim! Dava pra gente
ir a pé. Você pode deixar o carro aqui na garagem. – falei, enquanto ele ligava
o carro e seguíamos.
-Ah, não precisa, não.
Hoje eu quero ficar muito sóbrio. – ele sorriu, me olhando.
Tremi de novo.
Quando chegamos, o pub já
estava bem cheio. Mas conseguimos arrumar uma mesa para dois no cantinho e nos
aconchegarmos ali.
Um garçom alto e de boa
aparência veio logo nos atender.
-Uma coca, por favor. –
eu pedi.
-Um suco de laranja. –
pediu Yuri.
Enquanto isso, dei uma
olhadinha no cardápio. Lá eles ofereciam todos os beliscos que pub/barzinhos já
estavam acostumados a servir e alguns pratos mexicanos também (o forte dali era
esse tipo de comida).
-Ah, não queria que
estranhasse minha roupa, eu acabei de sair do escritório. Achei que ia ter
tempo de ir em casa e dar uma descansada... mas acabei ficando preso até mais
tarde.
-Não tem problema algum.
– “eu amo homens que usam blusa social”, quase falei. – O seu escritório é de
que, mesmo?
-Advogados. Trabalho com
meus irmãos. Hoje estava meio movimentado porque uma pessoa de nome nos
procurou para lidar com umas questões de pensão dela e tudo.
-Ah, entendi. Como
consegue fazer faculdade e ainda trabalhar lá?
-É pesado. – Yuri sorriu,
me olhando. – mas eu já estou prestes a me formar, então acredito que essa fase
vai passar. Eu entrei tem uns 3 meses só no escritório, ainda estou me
adaptando.
-E é isso que você quer
fazer pelo resto da vida?
-Ainda estou pensando
nisso. Penso em duas opções: ou abrir meu escritório, ou ficar estudando para
concurso público e ser juiz, algo assim.
-Caramba. Você realmente
gosta de estudar.
-Ah, mas você também é
assim, né? Pessoal vive dizendo que você não para um segundo.
-Verdade, preciso
admitir. Tem a faculdade, trabalho... e ainda arrumo curso para fazer online. -
Eu e Yuri rimos.
O garçom voltou com
nossas bebidas e anotou nossos pedidos de comida também. O clima ali (tanto do
ambiente, quanto entre mim e Yuri) estava maravilhoso. Era leve. Ali não
sentíamos pressão alguma.
-E o que você pretende, depois
de se formar? – perguntou Yuri em um momento.
-Viajar. Pretendo tirar
um tempo dessa loucura toda e fazer algo como um mochilão, sabe? Sinto que
ainda tem muita coisa pra eu conhecer por aí. E você?
-Depende. Depende de como
eu vou estar no momento, sabe? Por exemplo, se eu conseguir abrir meu
escritório... não vou conseguir fazer muito além de focar meu tempo e atenção
ali. Se eu ver que ainda dá pra segurar um pouco mais, talvez invista em
procurar alguns hobbies.
-Você não tem nenhum? –
ri, perguntando.
-Ah, nada demais. Eu
estudo e gosto de treinar.
-Academia ou algo mais
profissional?
-Academia. E eu também
dou aula de defesa pessoal.
-Você dá aula de defesa
pessoal? – isso não deveria ser ministrado por aqueles caras velhos, barrigudos
que querem ajudar as mulheres a fugir de assédios? Não por caras gatos. E
novos.
-Sim. Posso te ensinar
alguma coisa, se você se interessar. – ele falou, me olhando.
Talvez eu fingiria que
não consigo escapar dele de propósito.


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