Sobre a autora
Daniela Arbex é uma das jornalistas mais premiadas de sua geração: tem mais de 20 prêmios nacionais e internacionais no currículo, entre eles 3 prêmios Esso, o americano Knight Internacional Journalism Award (2010) e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina (2009).
Ganhou também o prêmio Melhor Livro-Reportagem pelo cafecomgiulia.
O livro
Holocausto Brasileiro trata-se de uma tragédia, algo tão surreal que foi até comparado ao Holocausto original. Daniela juntou em seu livro depoimentos de pessoas que passaram pelo chamado "Colônia".Localizado em Minas Gerais, o Hospital Colônia de Barbacena, foi um hospital psiquiátrico fundado em 12 de outubro de 1903 na cidade de Barbacena, Minas Gerais. Fazia parte de um grupo de sete instituições psiquiátricas edificadas na cidade que, segundo alguns, recebeu o epíteto de "Cidade dos Loucos".
Tornou-se conhecido pelo público na década de 1980, pelo tratamento desumano que oferecia aos pacientes. O psiquiatra italiano Franco Basaglia taxou a instituição como um campo de concentração nazista.
Em grandes vagões de carga, conhecidos como "trem do doido", chegavam os pacientes do Hospital Colônia, em uma época que várias linhas ferroviárias chegavam à cidade. A instituição tinha sido fundada em 1903 com capacidade para 200 leitos, mas contava com cerca de cinco mil pacientes em 1961.
Para o Colônia, eram enviados "pessoas não agradáveis", como opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, entre outros grupos marginalizados na sociedade. Estima-se que cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnóstico de qualquer tipo de doença mental.
No período em que houve o maior número de mortes, entre as décadas de 1960 e 1970, o que acontecia no hospital chegou a ser chamado de "Holocausto Brasileiro". Estima-se que pelo menos 60 mil pessoas tenham morrido no Hospital Colônia de Barbacena.
Daniela conseguiu depoimento de sobreviventes do Colônia, mas as fotos concentradas no livro conseguem te fazer chorar mais do que as palavras (que já são bem fortes) dessas pessoas. O pior de tudo é pensar que muitos nem sequer sabiam do genocídio que acontecia por trás das paredes do local.
Pessoas (que hoje em dia seriam diagnosticadas com apenas distúrbios) que entraram naquele hospital, saíram como corpos sem nome, sem identidade. Um dos pacientes, identificado pela autora, ficou anos sem falar porque os enfermeiros e médicos do hospital acharam que ele era mudo. Diante de tanta tristeza, maldade e esquecimento, é plausível de se perder a voz.
"Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Alguns morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colômbia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida."
Um livro- reportagem desse não poderia ganhar nada menos que um 10 meu. Com tanta delicadeza, Daniela correu atrás de descobrir (e desenterrar) muito do que acontecia nesse chamado Campo de Concentração Brasileiro. Daniela deu voz àqueles que foram esquecidos, abandonados pela sociedade. Deu uma chance de mostrar que por trás daqueles chamados "doentes" existia um pai, uma mãe, um irmão (ã), existia uma alma.
Tudo o que eu consigo falar sobre esse livro, é: obrigada, Daniela. Obrigada.





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