Rio 40 graus o caralho.
Sensação térmica tá quase na casa dos 60.
Você se bronzeia apenas no pensamento de ir a praia. Ta foda demais.
-Não derrete não, Dakota!-Disse Eduardo -meu fiel melhor amigo na E!
Brasil -Passando pela minha mesa no escritorio.
-Estou tentando, Dudu. Estou tentando! -Nós rimos.
Eu trabalhava na E! BR desde o dia em que saí da faculdade de Jornalismo
e sai jogando meu currículo até em loja de eletrodomesticos (acredite, fui
chamada por todas, ok!) e por sorte, na época, eles estavam precisando de alguém novo, que soubesse das
"atualidades" de moda e tudo nessa área para trabalhar numa coluna
para tal. Claro que fui a escolhida.
Meu tempo na empresa passou a correr mais rápido e eu a evoluir
gradativamente. Agora sou editora chefe de todas as colunas da E!BR. Acredite,
nao é facil ser uma dessas em dias como esses em que o ar condicionado está
sendo limpo e todas as salas estão apenas com um ventilador de pé cedido pelas
lojas de eletrodomésticos que me chamam para ir trabalhar lá até hoje.
Fazer o que, por onde passo deixo um charme básico!
E, por sorte mais uma vez, -ou ironia do destino? -Eduardo Quitério
entrou em minha vida naquele furacão de confusão entre empregos, estágios e até
mesmo hobbies.
Isso me faz lembrar da primeira vez que vi aquele rosto de surfista,
aquele piercing no lábio inferior e os cabelos na nuca, lisos e loiros...
-Posso ajudar? -Chegou um rapaz pouco mais alto que eu ao meu lado,
perguntando-me com um puta sorriso e um rostinho corado. Cara de praia. Conheço
bem esse tipo.
-É. Mas.. Vou esperar um atendente mesmo.
Era a primeira loja de eletrodomesticos a qual eu colocava meu
curriculo. Nao precisava de um marmanjo me cantando na minha primeira
tentativa.
-Ahn.. -Ele pigarreou, mostrando-me seu crachá. Eduardo Quiterio. -Eu
sou um atendente. Voce quer outro?
-Nao! -Corei imediatamente. Pareceu que sou a mais megera do mundo. Boa,
Dakota! -AH, Deus. Me perdoe. Sério. Eu.. Ahn.. Só queria deixar meu curriculo
com o gerente! Ele está aqui hoje?
-Tudo bem, admito que não tenho muito cara de vendedor de loja de
eletrodomesticos. Nem trabalho aqui, pra ser sincero. Estou só cobrindo o turno
de um dos empregados do meu tio que precisou folgar. Meu tio é o gerente. Vou
chama-lo.
-Obrigada. -Sorri, meio aturdida com aquele monte de informação que ele
me passara, sem necessidade.
-Vem por aqui, por favor.
Segui atrás dele pela loja até os fundos.
-Voce também nao faz muito o perfil das vendedoras dele.
-Uau. Valeu. Adoro gente que me encoraja dessa forma. -Sorri,
ironicamente.
-Nao, nao foi nesse sentido que quis dizer. Voce merecia estar num
escritório, entende?
-É. Eu também gostaria. Mas vamos ver no que dá isso, nao é?
-É. -Ele sorriu, meio desconfiado pra mim. -Vamos ver.
E foi assim que semanas depois, deixei meu curriculo na E! e me ligaram
parabenizando a conquista da vaga no emprego.
E quando me dei conta, o famoso atendente-substituto da loja de
eletrodomesticos, era meu companheiro de trabalho.
Imagina minha cara de ter que olhar pra cara dele todos os dias.
Em pensar que isso foi há 7 anos atrás. Saí da facul com 22, entrei na
empresa logo depois, e agora permaneço nela com 29. O tempo voou com nossos
cumprimentos pelo corredor, saídas pro almoço em bares e restaurantes chiques
-quando ganhávamos pela hora extra-, cafés a tarde e até mesmo cinemas nos
sábados.
Mas.. Depois do sonho vem a realidade.
Eu estava me apaixonando por Eduardo.
Qual é.. Um rapaz desses, alto, forte, carinha de galã, hiper simpático,
bonito, inteligente, bonito, gostoso, forte.. Nao é muito dificil isso
acontecer!
Ele foi percebendo que nossas saídas estavam ficando mais intensas,
nossos olhares mais demorados e nossas conversas mais silenciosas. E ficamos.
Tem uns 3 anos que isso aconteceu, mas ah, Deus! Nao posso esquecer nunca da
inexplicavel sensação de seus lábios nos
meus.. Mas começamos a brigar bastante, e nao quisemos misturar a relação
amorosa com a social. Então deixamos quieto, e continuamos amigos.
Até que..
-Dakota! Precisamos de voce na sala de reuniao. -A secretária do meu
chefe, Marta, passou por mim apressada.
Acabou meus segundinhos na Terra do Nunca.
-A caminho!
Peguei umas coisas, me levantei e corri até lá. Senti os olhares dos
meus parceiros dali em cima de mim. Era dificil trabalhar numa empresa grande
por tres coisas: Ter que me vestir muito bem, ter muitos parceiros homens
trabalhando comigo e não poder ficar com ninguém.
Minhas roupas nao eram curtas, nem decotadas, mas eu sempre mantive
minha boa forma, nao como besteiras, faço yoga e academia, então.. Uma morena
do cabelão, corpo com as curvas ideais, cara de india e sorriso bonito, é
sempre o forte da maioria. Mas..
Depois de Eduardo houveram uns aqui e outros ali, cheguei até a namorar
por 2 anos. Mas foi apenas uma distração. Eu nao consegui sentir novamente o
que senti por ele.
Tenho medo de que aquela sensação, ansiedade, aquele friozinho na
barriga nunca mais volte.
-
O dia foi intenso. Ficamos horas na sala de reunião decidindo as
proximas matérias da revista, e renomeando quem cuidaria do site, e cobriria os
proximos eventos.
Por volta das sete da noite, fui finalmente liberada.
O clima estava bem melhor e mais fresquinho, mas independente disso, eu
só queria ir logo pro meu apartamento e ficar jogada no sofá por algumas horas.
Enquanto eu arrumava minha bolsa e minhas coisas em minha sala, ouvi
dois toques na porta. Mais conhecidos como "ALERTA VERMELHO: não fale
nenhuma besteira! É apenas o Eduardo". Virei-me soltando um grampinho que
estava segurando minha franja e arrumando meu cabelo, fazendo sinal pra que ele
entrasse, enquanto ele o fazia com as maos nos bolsos da calça jeans,
combinando sensualmente com sua camisa de linho azul.
Ah, e ele se vestia tão bem! Era covardia ter isso tudo tão perto e ao
mesmo tempo, tão longe de mim!
-Lili. -Ele me chamava assim desde a primeira vez que saímos e ele
pensou que meu nome fosse Adeli. Sim. Há uma grande diferença entre Adeli e
Dakota. Eu sei. Pergunte isso a ele.
-Oie! -Olhei-o terminando de me arrumar. -Deixarei esse forno aqui em
instantes.
-É, tá na minha hora também. -Dudu coçou a cabeça, cruzando os braços e
me olhando. Tipo. Me olhando. Mesmo. -Eu.. Queria saber se voce.. ahn, a gente
pode sair pra jantar hoje, tomar alguma coisa, sei lá. -Deu de ombros.
-Alguma ocasião especial?
-1 ano hoje. Minha mãe está com Kauã e me deu a ideia de sair um pouco
hoje. E eu não tenho muito o que fazer, nem com quem.. Então pensei se..
-Ah, certo. Certo.
Um ano de morte da esposa dele. Ta aí o grande motivo d'eu e Eduardo nao
termos dado certo. Ele havia se apaixonado por uma amiga sua na faculdade, mas
acabaram se distanciando. Pouco depois, se reecontraram -logo quando estávamos
começando a nos entender depois da confusão de "vamos ser só amigos, ta
bem?" -e acabaram dando certo.
5 anos de casamento. Morreu na hora do parto do pequeno e adorável Kauã.
Foi bizarro.
Mais ainda na noite em que recebi a noticia..
Era noite de hora extra. E tudo que eu queria era estar no hospital com
Eduardo, segurando sua mão pra poder ver logo o rostinho do seu lindo bebê. Sua
esposa daria a luz hoje, e eu tinha de ficar aqui, revisando colunas e textos.
A vida nao é justa de verdade.
Estava no meio de uma reunião para decidir o tema de nossa proxima
campanha a ser divulgada, quando comecei a passar muito mal.
Mas mal mesmo.
Falta de ar, e segundo Michaelly -minha co-acessora- eu estava branca
feito papel! e com uma dor absurda no peito.
-Eu.. preciso.. sair. -Levantei-me cambaleando da cadeira e voltei pra
minha sala, abrindo a janela e tentando respirar.
Parecia que todo o ar era insuficiente pra mim.
No meio disso tudo, senti meu celular vibrar no bolso. Peguei-o de
reflexo mesmo, mais rápida que minhas batidas do coração e quando vi o nome de
Eduardo na tela, senti minhas pernas amolecerem.
-Oi, Du. -Eu falei numa voz fraca, sentando no chão.
-Houve um sangramento desconhecido.. Ela.. Ela perdeu muito sangue..
Dakota. Minha esposa morreu, Dakota. Minha esposa de 24 anos morreu.
-Estou indo pra aí agora.
Só Deus sabe como tive forças pra sair que nem uma louca da Empresa,
pegar um táxi e ir direto pra aquele hospital. Lembro-me como se fosse hoje, eu
correndo pra sala de emergencia e encontrando Eduardo completamente devastado
no corredor. Sentado no chão. Ele mal chorava. Só olhava pro nada, e sussurrava
com ele mesmo.
Pareceu que se passaram horas em que ficamos abraçados, apenas ouvindo o
choro um do outro.
Lágrimas brotaram em meus olhos assim que ele trouxe de volta aquelas
memorias em mim. Abaixei a cabeça e fingi guardar coisas em minha bolsa.
-Abriu um restaurante novo japones aqui na esquina. -Falei, ainda de
cabeça baixa.
-Se voce nao quiser ir, eu posso..
-De forma alguma, Du. -Olhei finalmente pra ele. -Nao tenho nada pra
fazer agora, e realmente admito que voce precisa distrair a mente, só por hoje,
pelo menos.
-Tudo bem. Vou pegar minhas coisas e te espero lá embaixo.
-Ótimo.
Meu coração trepidava.
Desde aquela noite ele nunca falou muito sobre ela, ou sobre eles dois.
Nós nao eramos só colegas de trabalho, construimos uma amizade de verdade,
cansei de recebe-lo lá em casa por causa de brigas dele e sua mulher, quando
Edu só queria um lugar com mais paz e ninguém para julga-lo. E cansei de ligar
pra ele chorando horrores ou por causa da TPM ou por causa de algum babaca da
vida. Mas era dificil conversarmos sobre essas coisas que fizeram uma grande
mudança em nossa vida.
Agora ele era um pai solteiro de 30 anos, com um bebe de 1 aninho que a
mãe cuida sempre que pode. E eu também! Sou completamente apaixonada pelo Kauã.
Aquela criança parece que tem brilho nos olhos e esperança no sorriso. É um
amor.
Saímos pouco tempo depois, jantamos e conversamos por horas. Sobre o
trabalho, sobre a vida e até mesmo sobre essa merda de carnaval que estava
chegando.
Não tocamos no assunto do porque ele estava de verdade ali, mas de
qualquer forma, foi bom ve-lo afastar aquilo de sua mente por um tempo. Foi bom
ve-lo voltar a ser o Edu da loja de eletrodomesticos que eu conheci.
Ele me deixou na porta de meu prédio e antes de sair, dei-lhe um forte
abraço, agradecendo pela noite que tivemos. Foi extremamente agradável.
-Obrigada, Dakota. De verdade. -Eu havia esquecido como era o som de
seus lábios ao dizerem meu nome! Ah, Eduardo.. -Nós tinhamos de fazer isso mais
vezes. -Encarou-me, com um olhar tão sincero que chega doeu. -Nao digo isso
porque é pra esquecer meus problemas, mas gosto de estar com voce. De verdade.
-Eu também gosto. -Falei, encarando-o de volta. -E voce sabe bem disso.
Estou ao seu dispor.
-Voce nao ta saindo com ninguem agora? -Neguei com a cabeça. -Por que?
-Ué.. Por que nao. -Ri, meio sem graça. -Nao tenho saído pra festas ultimamente,
ando meio enrolada no trabalho e sei lá.. Parece que nao pertenço mais a esse
grupo.
-Espera chegar nos 30. -Rimos, sarcasticamente. Ele era apenas um ano
mais velho que eu! Nao fazia diferença alguma. -Voce merece muito encontrar um
cara legal, só isso.
E quem sabe não encontrei, mas ele ainda não me encontrou?
-É. -Assenti, bem constrangida. É momentos assim que eu sempre temo. Não
gosto disso, dói tanto ouvi-lo falar dessa forma comigo. -Bem, preciso subir!
Deixe um beijinho no Kauã.
-Faz mais de uma semana que voce nao vê ele, nao é? Ele andou
perguntando de voce esses dias, acredita?
-Ai meu Deus, que fofura! -Falei toda animada. Eu amo crianças. No
geral. Todas as crianças. Todas sao lindas. Se pudesse pegava todas pra mim.
-Estou morrendo de saudades daquele baixinho.
-Passa lá em casa amanhã no almoço. Combinei de leva-lo no Mc Donalds,
voce pode ir com a gente.
-Sério? Eu vou adorar. -Sorri.
Fiquei um tempo olhando pra Eduardo e sorrindo. Santo.Deus. As vezes eu
nao conseguia me controlar de olha-lo.. Ele.. Ah.
-Bom, enfim. Vou lá. Obrigada pelo jantar. -Dei dois beijinhos nele e
saí do carro.
Entrei no prédio e subi pro meu apartamento nas nuvens. Parecia que eu
era capaz de sentir aquele cheiro maravilhoso do CK dele em toda parte do meu
corpo.
Ah, Eduardo..
-
Quinta-feira era dia de trabalhar apenas após o almoço. O lado ruim é
que eu só deixava a empresa depois das 23h.
Mas nada melhor que almoçar com o melhor afilhado do mundo.
Sim, eu era madrinha de Kauã. Quase chorei de tanta felicidade quando
Eduardo me pediu para eu ser.
Kauã ainda nao fala direito, mas balbuciava direitinho o que ele queria.
Claro que uma criança de 1 ano nao pode comer hamburguer, mas adorava aquelas batatas
fritas e sorvete. Com quem que ele deve ter aprendido a comer isso nao é
mesmo...
cof cof.
-nhinda. -Era assim que me chamava. Eu as vezes ficava na duvida se era
linda ou dinda. Mas ta bom os dois. -Maix maix! -Me pedia mais batata na boca.
Quem via de longe até acreditava que eramos: mae, pai e filho. Eduardo
mexia no celular a trabalho e eu alimentava Kauã. Ah, que sonho.
Que sonho.
-Voce sentiu saudades de mim, foi? -Falei numa voz manhosa. -Sentiu
saudades da nhindinha?
Kauã balançou a cabeça positivamente, sorrindo e corando. Quase gritei
de tanta fofura.
-LINDO!
-Teve a quem puxar, nao é mesmo garotao? -Eduardo passou a mão no cabelo
ralinho preto dele, bagunçando.
-Nao faça isso! -Tirei a mão dele, arrumando de novo o cabelo, enquanto
Kauã gargalhava. -Espero que dê tempo d'eu dar um pouco de humildade pra ele.
-Ah, Lili! -Eduardo riu.
Terminamos de dar o lanche a ele, deixamo-no na creche e seguimos direto
pro trabalho.
-Ele gosta bastante de voce.
Claro. Passamos tardes brincando, e algumas noites quando ele tinha
problemas com cólicas e mamadeiras, era eu quem corria pra casa de Eduardo para
socorre-lo. Uma criança sabe reconhecer quem cuida de verdade.
-E eu gosto bastante dele. -Falei numa voz manhosa que uso apenas com
Kauã, fazendo Eduardo rir. -Sabe o que tem pra hoje?
-Reunião pelo Poderoso. Vamos ver o que sobrou pra gente.
Poderoso significa nosso chefe. Um frio subiu pela minha espinha.
-Vamos ver.
-
-WHY YOU GOTTA BE SO RUDE? -Eu gritei pra Michaelly, assim que saí da
reunião.
Eu deveria ter gritado pra o babaca do meu chefe.
Todo mundo na Terra sabe que eu odeio, nao suporto, o carnaval.
E adivinha quem vai passar a tarde e madrugada inteira cobrindo uma
matéria do desfile da Apoteose? A gostosona aqui.
Puta que me pariu. Velho filho da puta!
-Olha pelo lado bom! Voce vai ficar o dia e madrugada toda coladinha com
Eduardo, boboca!
-Querida, voce nao ta me entendendo. Vou ficar o dia e a madrugada toda
suada, ouvindo pagodes e sambinhas escrotos, vendo gente suada, sentindo fedor
de gente chata, e ainda por cima, aturando bebados. Voce tem noçao dessa merda
toda em que me meteram?
-Sim, eu sei, eu sei, fica calma, Dakota! Voce se estressar antes da
hora nao vai dar em nada, voce sabe bem disso. Voce tem a opção de largar..
-E perder um aumento de 50%? Nem sob tortura.
-E entao o que voce vai fazer, louca? -Ela disse, sentando-se em frente
a minha mesa.
-Eu vou pra essa merda e vou fazer a melhor cobertura que essa porra de
empresa já teve. Aquele velho vai ler sobre minha matéria de carnaval nos
jornais até no Natal. Ele vai ver só.
-Fica calma, você vai..
Toc toc.
-Oi meninas. -Eduardo entrou na sala com uma cara nao muito boa. -Posso
falar com Dakota um minuto?
-É claro. Claro.
Michaelly saiu na hora da sala e Eduardo se sentou no lugar dela.
Suspirei, ligando meu computador. Apesar dessa puta noticia, eu ainda
trabalharia ate as onze.
-E entao?
-E entao o que? -Olhei pra ele bem puta.
Eduardo me conhece com a palma de sua mao, ele sabe muito bem o quanto
to arrasada por ter de fazer algo que eu detesto, fazendo algo que eu amo.
É. Basicamente isso.
-Voce vai ficar com essa cara feia só por que foi escalada pra fazer uma
matéria que nao queria, ou lidar com isso de forma profissional?
-Eu vou continuar de cara feia porque fui escalada pra fazer uma matéria
que nao queria. -Coloquei meu braço na mesa e apoiei meus dedos no rosto, séria
pra ele.
Eu já estava puta da vida, ele iria mesmo me provocar agora? Serio?
-Cresce, Dakota. Voce tá nessa empresa há anos, precisa começar a lidar
melhor com essas experiencias. E dai que voce nao gosta de carnaval? Voce vai
ter de ir la e fazer essa matéria de qualquer forma, a nao ser que queira
perder um puta aumento no salário e também, a confiança de muitos nessa
empresa. Voce podia começar a usar todo esse potencial que tem em outras áreas,
nao só fazendo aquilo que voce quer, e que voce gosta. -Levantou-se,
suspirando. Antes de sair, olhou pra trás mais uma vez e disse -Vai ganhar
muito mais assim.
Assim que ele saiu, apenas abaixei a cabeça e suspirei. Controle-se
Dakota.
Odeio admitir que ele está certo.
-
Passei o resto da tarde/ noite corrigindo uns textos que iriam para
coluna de carnaval, a primeira que haviam preparado, e tentei começar a fazer.
Mas nada saía. Nadinha. Eu nao sabia o que falar sobre o carnaval por que nao
estava acostumada a isso, e nunca nem fui a um desfile, pra se ter ideia.
Acho que o jeito é ver como é isso na pele mesmo.
"Carnaval. Festa da carne. Blocos tomando as ruas mais
movimentadas, escolas de samba cantando seus versinhos por tudo quanto é canto
das cidades, e a preparação, ansiedade, e expectativa dos sambistas para mais
um festival colorido, com muita musica, samba, pagode e o que nao pode faltar:
Alegria". Era tudo o que eu consegui às 22h da noite.
Toc toc.
Olhei pra Eduardo assim que ele entrou em minha sala, em silencio. Nao
haviamos nos falado desde que ele resolveu bancar o
"sei-de-tudo-e-to-certo".
-Roberto nos liberou mais cedo. Pediu pra que descansássemos hoje porque
precisamos estar aqui amanhã as 10 da manhã.
Assenti com a cabeça, olhando pra ele.
-Voce quer carona pra casa?
-Acho que vou com Michaelly hoje. -Falei bem seca, voltando minha
atenção pro computador.
-Ela já foi.
Suspirei.
-Dakota, olha pra mim. -Assim que o fiz, ele se aproximou e debruçou-se
com os braços em minha mesa. -Me desculpa, ta legal? Nao queria ter bancado o
"sabe tudo" hoje a tarde com voce. Eu tambem nao queria isso tanto
quanto voce. Tinha planejado passar o dia com meu filho e iria dar uma desculpa
qualquer pra nao vir amanhã. Mas nem tudo é como a gente quer, e eu me recuso a
passar horas com voce, puto da vida por estar fazendo algo que nao quero, e
assim voce estar fazendo também. Me entende?
-Tudo bem, Du. Tudo bem. Nao tem problema.
-Posso te levar pra casa agora?
Ele sorriu. Ah.. É dificil eu resistir àquele sorriso.
-Claro que sim.
-
Pra colaborar com aquela deliciosa sexta-feira (que apesar d'eu ter
rezado pra caralho pra que nao chegasse ou que eu acordasse com uma doença
hiper contagiosa)que chegou com tudo, o calor veio. E mais forte ainda.
Eram onze horas da manhã e lá estávamos eu e Eduardo e um fotografo de
nossa empresa, em frente a um bloco que passava perto da Apoteose, fazendo
algumas entrevistas e anotando algumas informaçoes sobre o tempo, o transito,
as fantasias, etc.
-Olha pelo lado bom...19 horas para acabar!
-Voce me inspira, sabia? -Sorri pra ele, sarcasticamente.
Como estavamos liberados de uniformes ou qualquer coisa do tipo,
coloquei meu short mais curto e uma regatinha que também nao escondia muito.
Fiz um rabo de cavalo e nao tirei meus oculos escuros um minuto. Eduardo levou
pra mim um arquinho de oncinha, pra "entrar no clima". E é claro que
tive de coloca-lo.
Ele se aproveitou também, e colocou uma bermuda jeans com uma camisa sem
mangas branca. Estava com o estereotipo perfeito de surfista agora!
Cada hora que eu me virava de costas pra ele, afim de pegar outra pessoa
para entrevistar, eu era capaz de sentir seus olhos em cima de mim.
Nenhum homem resiste a um bom shortinho, nao é mesmo?
Paramos por cerca das 14h para um almoço rápido e logo depois, fomos
acompanhando a multidão em outro bloco.
O calor. O suor. A musica alta. Cada celula do meu corpo implorava por
socorro, mas fui capaz de colocar um sorriso na boca e até a cantar uma
marchinha ou outra que sabia de cor.
Quando era por volta de 22h da noite, eu e ele estavamos bem perto de
onde uma das escolas de samba iria começar o desfile, fazendo umas entrevistas
finais e tirando mais fotos, quando encontrei uma garotinha de no maximo 9 anos
chorando horrores.
-Lili, onde voce vai? -Dudu perguntou assim que me viu me afastar aos
poucos dele e me aproximar da garotinha.
-Um minuto. -Olhei pra ele rapidamente e depois voltei minha atençao a
ela.
Ela era baixinha, vestia uma fantasia igual às outras crianças e estava
toda arrumada, provavelmente, pronta para desfilar.
-O que aconteceu com voce? -Agaixei-me de frente a ela, preocupada.
-Está machucada?
-Eu me perdi da mamãe! E o desfile já vai começar.. Eu estraguei tudo!
-Ela chorava sem parar.
-Ei, fica calma. -Abraçei-a, sem saber o que falar. -Voce nao conhece
ninguém que possa ir com voce?
-Nao.. É minha primeira vez aqui. E eu nao sei o que fazer. Eu estraguei
tudo. -A garotinha me agarrou. -Me ajude, por favor.
-Ai, caramba.
Dei uma olhada em volta procurando alguém que poderia localizar a mãe
daquela menina pra já. Mas ninguém podia. E eu nao conhecia ninguém.
-ENTRAMOS EM 7 MINUTOS! -Uma mulher que estava terminando de arrumar os
cabelos das meninas que estavam vestidas que nem ela disse, apressada.
-Ai meu Deus! -A garotinha chorava de novo.
-Nananana! Eu tive uma ideia. Pare de chorar e venha comigo. Voce vai
desfilar hoje.
O semblante da garota chega mudou quando disse aquilo. Me senti bem pra
cacete.
Peguei na mão dela e antes de sair correndo pra dentro dos vestiários,
passei por Eduardo -que estava com uma cara de "que diabos voce esta
fazendo?" e tratei logo de avisa-lo:
-Nao precisa cobrir mais o resto da matéria, pode ir pra casa se quiser.
Essa menina se perdeu da mãe e eu nao vou deixa-la na mão. Vou desfilar com
ela.
Ele arregalou os olhos, surpreso.
-Voce ta louca?Como voce vai..
-Andar e cantar ao mesmo tempo nao deve ser muito dificil, né Dudu?
Falei sério. O desfile deles acaba em 1h e 20 min. Pode deixar o final da
matéria comigo. Vá pra casa e fique com o Kauã.
-5 MINUTOS PESSOAL! -A mulher disse e antes que eu saísse correndo com a
garota de novo, Eduardo me segurou, falando:
-Te espero naquele bar aqui em frente, assim que acabar de desfilar vá
pra lá. Voce é maravilhosa, Dakota. -Ele disse, todo alegre.
-O que vamos fazer? -A garotinha disse enquanto eu olhava boba ainda pra
Eduardo e sorria pra ele.
-Nós vamos desfilar e encontrar a sua mãe.
-
Desfilei com Beatriz -assim era o nome da garotinha perdida- de fantasia
e tudo na comissão de frente.
Eu não sabia o samba-enredo da escola, porem sabia andar, sorrir e
sambar de mãos dadas com Beatriz, eufórica e toda feliz por estar ali.
Não precisei fingir um sorriso ou fingir que estava gostando de estar
ali só para nao desapontar a garotinha, eu estava feliz de verdade. Ve-la
daquela forma, ter tido a chance de ajuda-la a nao perder esse carnaval por um
erro dela e da mãe, foi sem duvidas um alívio pra mim. Eu me sentia
inexplicavelmente bem em ajudar os outros.
Quando acabou o nosso desfile, eu nem notei. Estava feliz no embalo com
ela, que só notamos quando fomos chegando no final da quadra.
Imediatamente vi uma loira correndo na direção dela e gritando
"FILHA! MINHA FILHINHA!", e logo nos aproximamos dela.
-Ah, graças a Deus, meu amor! Voce ta bem? -A mae dizia abraçando-a e
beijando a garotinha.
-Sim, eu tô! A tia Dada cuidou de mim! -Ela apontou pra mim. -Desfilei
com ela, mamãe! Foi incrivel!
-Ah, muito obrigada. -A mulher veio me abraçar e eu a correspondi
instantaneamente -Obrigada de verdade. Nao sei como acabamos nos
separando..Quando vi, minha pequena nao estava mais ao meu lado.
-Acontece. -Sorri, assentindo. -Sem problema algum, foi ótimo desfilar
com ela. Tome cuidado na proxima vez, huh? -Dei um beijo em Beatriz. -Obrigada
por hoje, amiguinha.
-Obrigada, tia. Espero que a gente se reencontre.
-Eu também, linda. Eu também.
Olhei no relógio e eram quase meia noite. Eduardo devia estar louco pra
ir logo pra casa!
Corri logo pro vestiário, troquei de roupa, e fui pro barzinho onde Edu
pediu pra que eu o encontrasse.
Ele estava lá, sentado em uma das cadeiras de frente a mesinha de
plastico, tomando agua e mexendo no celular.
-Vamos?
-Wow! É claro. -Ele sorriu, se levantando e indo pro estacionamento
comigo. -Como foi?
-Foi maravilhoso, Eduardo! Sério. A alegria daquela garotinha foi o
suficiente pra me deixar firme e forte até o final. Foi muito bom. Me
contagiou, sabe?
-Imagino. -Ele sorria de orelha a orelha. -Na hora que vi como voce tava
preocupada com ela, nao esperei outra coisa.
-É. Encontramos a mae dela no final, graças a Deus também. Foi uma fofa.
-Deve ter ficado desesperada quando viu a garota, né?
-Com certeza. -Sorri. -Mas foi muito bem. E voce e o fotografo?
Terminaram tudo?
-Sim, sim. Só falta voce fazer aquele texto de intodução pra matéria e
terminamos!
-Ah, ótimo. Mas, espera. -Parei no meio do estacionamento.
-Que foi?
-Meu notebook deu defeito! Como vou fazer isso pra amanha? Minhas coisas
estao anexadas no meu email..
-A gente pode passar lá em casa e eu te empresto o meu. Pode ser?
-Ah, sério?
-Claro. Sem problema algum.
-Ótimo!
Entramos em seu carro e dali até sua casa foi rapidinho.
Assim que chegamos, sua mãe dormia no sofá, com Kauã ao lado dela.
-Acorda ela, eu coloco o Kauã pra dormir lá dentro. -Sussurrei,
pegando-o no colo e levando-o pro seu quarto.
Deitei Kauã no berço, cobri-o e quando voltei pra sala, a mãe de Edu já
havia saído.
-Ela já foi?
-Sim. Passou a tarde com ele, só quer dormir um pouco, coitada.
-Imagino. -Sorri, olhando em volta da sala.
Estava tudo -milagrosamente- arrumado. Normalmente quando venho aqui é
tudo sempre uma bagunça. Já avisei a Eduardo mil vezes que hoje em dia já
existe algo chamado "empregada", mas ele nunca me ouve.
-Ah, o computador. -Ele vai até a mesa da sala e me entrega. -Pode usar
o quanto quiser. Sem problema algum.
-Muito obrigada, sério mesmo..
-Voce vai mesmo voltar agora pra casa? Fica aqui essa noite. Está tarde,
é meio perigoso voce voltar essa hora.
Olhei pra cara dele e sorri, assentindo. Havia um brilho diferente em
seu olhar.
-Vou tomar um banho mega rápido, enquanto isso, tem um banheiro no
quarto do Kauã. Voce pode ir tomar lá, também.
-Ah, claro.
Eduardo me deu uma toalha e uma camisa sua limpa pra vestir, e eu logo
entrei de baixo do chuveiro.
Estava suada, cansada pra caramba e só queria descansar um pouco.
Sequei um pouco meu cabelo na toalha mesmo, vesti sua camisa, mas
coloquei meu short jeans por baixo. Apesar da camisa servir de camisola, de tão
grande que ficou em mim, eu não iria ficar só com ela, né.
Voltei pra sala e encontrei Eduardo sem camisa e só com uma bermuda de
ficar em casa mesmo. O cabelo molhado.. O abdome ainda escorrendo água.. É. Ele
nao seguiu o mesmo pensamento que eu de ficar apresentável.
-Voce quer comer ou pedir alguma coisa? Tem uns restaurantes muito bons
que entregam aqui.
-Nao, nao. Obrigada. Estou bem. -Sorri, sentando-me ao lado dele.
-Vamos ver um filme então. Quem dormir primeiro paga o almoço de amanhã.
-Ele sorriu, me cutucando.
E eu sorri. Eu nao parava de sorrir -pelo menos internamente(?) -na
verdade. Era inacreditavel que tudo aquilo estava acontecendo de verdade.
-Voce ja tem uma ideia do que vai escrever?
-Acho que sim. -Assenti, olhando pra ele. Fiquei meio constrangida porque
estavamos bem proximos, mas isso nao foi desculpa para ele se afastar. Nem eu.
-Eu gostei pra caramba de hoje. Apesar de tudo, ou por causa de tudo, acredito,
foi um dia incrível.
-Eu sei. -Ele sorriu de novo.
-Agora eu sabendo como que é aquela animação, aquele nervoso todo pra
desfilar, vai ser bem mais fácil.. Eu reclamo pra caramba, mas no fundo, no
fundo, faço qualquer coisa pra deixar alguém feliz. No final, só isso importa
pra mim.
-Eu sei.
-E por que voce fez aquele showzinho a tarde comigo entao? Voce sabia
que eu acabaria dando um jeito nas coisas!
-Sim, eu também sei disso. Por que era o unico dia em que eu finalmente
poderia passa-lo o tempo todo com voce, sem precisar te pedir ou pensar num
jeito criativo de o fazer, e nao queria disperdisa-lo te vendo brava o tempo
todo.
Congelei.
Eu realmente nao sabia o que dizer.
-Tudo bem.. Voce nao precisa dizer nada mesmo. -Edu disse, sussurrando e
inclinando sua cabeça e tronco pra perto de mim.
Foi tudo muito rapido.
Sua mão na minha nuca..
Seu sorrisinho de lado..
Seus olhos nos meus olhos como que pedindo permissão pra o que vinha a
seguir..
Até que seus lábios encontraram os meus.
E nao foi igual da ultima vez.
Nao teve frio na barriga, ansiedade, nem exaltações.
Pelo contrário. Teve calma, delicadeza, e amor. Muito amor.
Depois de um longo beijo, eu olhei pra ele e finalmente disse, baixinho:
-Se voce tivesse feito um pedido, o quão ridiculo que fosse, eu iria
aceitar na hora.
-Eu sei. -Ele riu, fazendo-me carinho. -Mas é dificil, Dakota.. Voce
entende toda minha situação..
-E o que mudou agora, pra voce fazer isso?
-Nada? Ou talvez tudo? Na verdade, nada mudou. Apenas a forma como o
mundo pareceu parar quando voce fez questao de pegar na mao daquela garotinha e
leva-la pra onde ela mais queria estar. Pra felicidade dela. Naquele momento,
eu percebi que nao se trata mais das circunstancias, mas sim, que eu tenho que
começar a viver de verdade. Quem sabe se tivessemos dado certo naquela epoca,
eu nao teria conhecido Manoela, nao teria tido Kauã e ela poderia estar viva
agora. E eu não precisaria ter passado meses em luto e depressão, sem poder ao
menos cuidar direito do meu filho. Mas será que a gente seria feliz? Será que
teria dado tudo tão certo, como foi dando e chegamos até aqui, agora? Acho que
eu me arrependeria se nada disso tivesse acontecido.
-Eu passei a deixar pra tras esses "se" na minha vida, desde o
dia em que encontrei meu melhor amigo tentando se matar por nao ver mais
esperanças na vida dele.
-Voce foi minha esperança durante todo esse tempo, Dakota.. Mas foi
difcil pra mim admitir pra eu mesmo isso.
-Ta tudo bem agora. Vai sempre ficar tudo bem..
-Só se eu estiver com voce. Me dê uma segunda chance. Voce é capaz de me
aceitar de volta?
-Nao tem como eu aceitar de volta o que eu nunca deixei ir.
Eduardo riu e me beijou de novo. E de novo.
-
"Carnaval.
Festa da carne.
Blocos tomando as ruas mais movimentadas, escolas de samba cantando seus
versinhos por tudo quanto é canto das cidades, e a preparação, ansiedade, e
expectativa dos sambistas para mais um festival colorido, com muita musica,
samba, pagode e o que nao pode faltar: O amor. Pessoas de várias partes das
cidades e até mesmo do mundo, se unem por um unico momento para festejar com
alegria essa explosão de gostinhos brasileiros que é o Carnaval. Sem se
importar de onde voce é, como voce chegou e o que fez pra estar aqui, todos são
o máximo receptivos quanto podem ser, e os sorrisos tomam conta do rosto do
povo. É época de esquecer um pouco os problemas, deixar pra trás de vez o
passado e assumir um novo ano que vem pela frente. Tempo de estar com quem se
ama, de nao perder mais seu tempo com o que não volta mais. É tempo de dar uma
chance a tudo o que lhe faz bem.
É tempo de se dar uma chance".
Mandei o textinho pro meu chefe assim que cheguei no trabalho e em
minutos ele foi imediatamente para minha sala, me parabenizar pela bela matéria
e pelo texto também.
Além de ter conseguido um aumento no salário, agora eu havia virado
gerente da empresa, junto com Eduardo.
-Um jantar para comemorar essa noite? -Dudu entrou na minha sala assim
que dei-lhe a noticia por mensagem, já que ele estava em reuniao, discutindo
com nossos colegas quem ficaria em seu lugar, exercendo o que ele fazia ha um
bom tempo.
-É claro.
Dei a volta por minha mesa, beijando-o.
-Eu nunca imaginei estar tão feliz quanto agora. -Ele disse, me abraçando.
-Como voce mesma disse em seu texto; "é tempo de se dar uma chance".
E eu resolvi me dar. Assim como voce deu uma pra nós dois, novamente.
-Eu daria todos os dias, se fosse preciso.
-


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